Roubar tradições do olvido


A música cabo-verdiana vive facilmente da melodia sólida e do riquíssimo ritmo. Com tal virtuosismo por base, dificilmente um disco pode deixar de interessar. Talvez por isso a maioria dos trabalhos discográficos cabo-verdianos não registe a preocupação em traduzir estruturas que lhe dêem mais corpo e proponham a quem escuta uma lógica sequencial muito para além da batida viva e do bom senso de um alinhamento que flua sem agredir.

Os trabalhos dos Tubarões, mesmo os do Bulimundo liderado por Katchás - que empreenderam pesquisas vanguardistas nas décadas de 70 e 80) e marcaram um período de viragem na evolução musical das ilhas - não cuidaram dessa possibilidade de fazer a iniciação à cultura global cabo-verdiana através da apetência registada, um pouco por toda a parte, para com o seu rico sentido musical. De uma certa maneira - e já cronologicamente depois de Estória, Estória...No Arquipélago das Maravilhas -, um ou outro sintoma desta rara tendência pode ser vislumbrado na obra (ou na postura em palco) dos Sementera.

Nem que fosse apenas por isso, Estória, Estória..., de Celina Pereira (que depois já editou Arpejos e Gorjeios), projecta-se como marco no registo dos sons do seu país. Primeiro pelo sentido global de pesquisa, depois pela maneira como serve de fixação de memória da tradição popular, finalmente porque introduz um mundo mágico de partículas primordiais que em dado momento atravessaram e ainda hoje caracterizam a sociedade de certas ilhas crioulas mais isoladas pelas vicissitudes de um progresso desencontrado. Todavia, foram ilhas - Boavista e S. Nicolau, especialmente, mesmo Santo Antão... - que tiveram preponderância em dado momento histórico, concatenando no seu seio diversificados instrumentos de desenvolvimento e de solidificação de uma estrutura cultural dignos de nota. Depois, as barcas do progresso rumaram a outros portos. Essas micro-sociedades recusaram, porém, emudecer diante do imprevisto trágico da sua nova condição secundarizante, e enfrentaram a estranha forma de solidão que foi sentirem-se postergadas mantendo abnegadamente tradições e mostrando, de forma altaneira, o seu orgulho através delas. Não tenho a certeza de que isso tenha sido uma salvação para essas sociedades e se tal beneficiou o seu desenvolvimento. Foi-o, sem dúvida, para a salvaguarda desses moldes culturais. E para a manutenção de várias características matriciais da sociedade crioula.

Celina Pereira, boa filha da Boavista - e isso quer dizer que foi nada e criada em família cuja linha matriarcal manteve os registos de entretenimento de infância e a patriarcal (a quem, amiúde, compete a execução instrumental e a dinamização dos eventos lúdicos de tocatina) preservou linhas melódicas ancestrais - com vivência posterior na cidade portuária do Mindelo, teve ao seu alcance instrumentos de percepção da diferença entre várias correntes melódicas usuais e essas outras pérolas raras quase acobertadas pelo «anonimato» da prática comum.

A sequência narrativa faz-se através da voz de uma «botadeira de estórias», dessas mulheres peculiares e determinantes numa comunidade que, ao cambar da tarde, reúnem em torno de si pequenos e graúdos para contar histórias da tradição oral e fazer o desenho das vidas colectivas. A botadeira Celina fará a urdidura entre essa memória de antanho com outras mais recentes, como é a homenagem ao músico de eleição que foi Travadinha. Usará cantigas e músicas de casamento, irá buscar contos tradicionais, porá as crianças a executar cantigas de roda, recupera uma serenata «das antigas», reabilita um formosíssimo lundum. Através da história do personagem Antoninho ficamos enredados como se estivéssemos colados às saias da botadeira destas falas que compõem um disco histórico, de uma maturidade pouco igualada, quer musicalmente, quer na interpretação.

(in Expresso - António Loja Neves)

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