Preservar a tradição num mundo em mudança


A cantora Celina Pereira fala da tradição, da cultura, da música dos hábitos da terra que lhe viu nascer: Cabo Verde. Em Portugal onde reside há 34 anos, recria as tradições antigas da sua terra, reinventando histórias para adultos e crianças. Na sua opinião “esta é uma tradição que se estava a perder que é preciso preservar”. Em termos musicais considera que “perderam-se muitos géneros de que neste momento já só há memória em termos pontuais”. É o caso da galope que é um ritmo de que neste momento não se conhece e o seu conteúdo, embora se saiba qual é o seu ritmo. A contradança, outra forma musical, de origem bretã, que junta música, dança e canto corre também o risco de desaparecer por completo se não for preservada. Esta forma musical só é praticada na ilha de S. Antão. O novo trabalho de Celina Pereira a ser lançado em Portugal trata-se de um album-livro ilustrado, acompanhado de um CD. Foi pensado para ser utilizado na área da educação intercultural, onde a cantora e contadora de história está ligada fazendo parte do projecto intercultural em várias escolas onde estudam muitas crianças de origem africana. Ela não está apenas preocupada com os alunos provenientes ou de origem cabo verdiana. O livro álbum contém textos da sua autoria e a adaptação de dois contos de África, dos quais um é de Cabo Verde. Começa com histórias e termina com uma serenata. As cantigas são cantadas por crianças. A edição do álbum está a cago de uma editora italiana e os contos foram ilustrado por uma italiana. Para além do lado lúdico do álbum, pode servir como guia de estudantes e educadores que queiram aprofundar alguns aspecto relacionados com a tradição oral de Cabo Verde. É uma grande perda para o património cultural de Cabo Verde e da humanidade se estas tradições não forem salvaguardadas. As recolhas de contos, das adivinhas e ditos populares foram iniciadas em Cabo Verde, tendo como a primeira fonte de informação a mãe. Depois acabou por estender a sua pesquisa vários países onde vivem e trabalham comunidades de Cabo Verde. Este trabalho começou por curiosidade, por sentir necessidade de conhecer melhor alguns aspectos da cultura das ilhas. Esta pesquisa tem possibilitado Celina Pereira viajar por alguns países europeus onde há uma grande preocupação sobre as tradições orais de outros países como é o caso da Alemanha, Estados Unidos da América onde esteve a convite dos professores do programa de educação bilingue. Para registar toda a informação que vai ouvindo usa um gravador de micro-cassetes para gravar os contos, as adivinhas populares, os ditos populares e as diversas músicas da tradição oral que correm o risco de se perderem com o passar do tempo. É uma grande perda para o património cultural de Cabo Verde e da humanidade se estas tradições não forem salvaguardadas. A mensagem tende a ser universal O seu primeiro trabalho de recuperação da memória das tradições orais foi reconhecido em Itália onde recebeu o seu primeiro prémio internacional, em 1991. Porém, a cantora e contadora de histórias revela uma certa mágoa pelo facto de não ter sido convidada para participar em festivais ou eventos culturais em Cabo Verde, o que lhe dava imensa alegria. Outras dificuldade com as quais tem de lidar é a falta de financiamentos e alguns problemas de ordem burocrática. Apesar de tudo a sua agenda continua com pelo menos três actividades previstas até Setembro de 2004. Em suma, a sua mensagem tende a ser universal. Embora não seja antropóloga, a cantora considera ser esta vertente que lhe possibilita conhecer e divulgar melhor as origens das tradições orais de Cabo Verde que sempre a fascinaram e a fascinam. Celina Pereira está preocupada com o lado pedagógico e, ao mesmo tempo, pretende atingir um público mais vasto. Na opinião de Celina Pereira, “um contador de histórias não é só um narrador, tem de ser um actor.” Para o efeito, tem de ter em conta que uma história engloba uma linguagem facial e gestual.

(in Sapo)

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